Cidades. A integração da sustentabilidade nas empresas ainda é insuficiente, mesmo que o avanço tecnológico o permita e as metas ambientais o imponham. Empresas como a EDP ou a EDIA são exemplos de vanguarda em eficiência energética num país envolvido em projetos de referência ao nível de redes energéticas com vista a cidades mais inteligentes

 

A evolução tecnológica a um ritmo que pensávamos utópico está a funcionar como acelerador das próprias metas ambientais fixadas em cimeiras mundiais. Países como a Suécia ou a Noruega já se comprometeram a reduzir para zero a emissão de carbono em 2030 e 2045, respetivamente. Porque a tecnologia o permite.  E, muito recentemente, após a Cimeira de Paris, o Parlamento Europeu aumentou o desafio da eficiência energética de 27% para 40%, o que também tem o efeito de pressionar as empresas a irem mais longe, referiu o presidente da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, Francisco Ferreira.
É com este pano de fundo que as cidades do futuro –  que tendem a concentrar cada vez mais gente –  terão de encontrar soluções sustentáveis ao nível da utilização de recursos energéticos, como a água, o sol e o vento para produção de eletricidade e soluções de mobilidade mais limpas e económicas.
Portugal reúne alguns exemplos de vanguarda, por exemplo, no setor da água, com elevados níveis de eficiência energética  em empresas como a EPAL ou na EDIA, que  gere o complexo de Alqueva. O presidente da EDIA, José Pedro  Salema, revela que, graças à adoção de tecnologias inovadoras – algumas da Schneider Electric –, não há perdas na distribuição da água nem desperdício energético, mas também que quer ir mais longe.
A empresa tem um plano de expansão da área do regadio e através de investimento em painéis fotovoltaicos vai produzir a própria energia de que necessita para funcionar, o que permitirá baixar o preço da água que vende ao agricultor, cortando também a sua fatura energética em 30%. “Alqueva já é um produtor líquido”, diz o homem responsável pela gestão de 50% da área de regadio nacional e por um empreendimento que, no seu potencial máximo, tem mais de 4,1 mil milhões de metros cúbicos de água, um pouco mais de toda a água consumida por ano no país.
Outros exemplos de como minimizar a nossa pegada ecológica foram apontados pelos oradores do debate de ontem, no DN, sobre Cidades Sustentáveis. Segundo inquéritos citados pelo executivo da Cisco, António Feijó, a  substituição da iluminação pública por lâmpadas LED permite baixar a fatura energética até 80%, enquanto a gestão de tráfego através de sensores de congestionamento com informação aos automobilistas pode baixar as emissões de CO2. Já os sensores de parqueamento inteligentes  não só reduzem a poluição como podem aumentar entre 20% e 30% as receitas ligadas ao parqueamento.
Temas em que a EDP Distribuição  está particularmente envolvida, com um projeto de substituição por lâmpadas LED em 60 mil postes de iluminação pública em várias cidades como Lisboa, como lembrou o administrador Ângelo Sarmento. Na linha da frente da inovação no domínio das redes de energia inteligente, a EDP foi premiada a nível europeu, em 2012, com o projeto Inov Grid, que consistiu em testar soluções de eficiência energética na cidade de Évora através da instalação de contadores inteligentes (EDP boxes) nas casas dos consumidores e de conselhos sobre gestão de consumos. A experiência revelou que o sistema de telegestão, em que o cliente pode aceder no seu telemóvel aos seus consumos em tempo real, induz mudanças de comportamentos que podem levar a poupanças de 4%  a 6% ou mesmo superiores a 20% em edifícios públicos. E está a ser replicada noutras regiões do país, com a meta a chegar a um milhão de casas no próximo ano.
Um dos grandes desafios para a EDPDistribuição – que já absorve na sua rede 95% das energias renováveis – será a gestão das novas complexidades como as que resultam da esperada proliferação dos chamados proconsumers, que produzem uma parte da energia que consomem e vendem outra parte à rede.  A empresa também antecipa já os mercados “paralelos” de compra e venda de eletricidade. Outro desafio será gerir a inevitabilidade  dos veículos elétricos e a rede de alimentação.
Como integrar a agenda da sustentabilidade nas prioridades das empresas foi outro dos temas transversais ao debate, com a secretária-geral do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, Sofia Santos, a lamentar que a teoria económica tradicional parta do princípio de que os recursos naturais são infinitos e a defender uma fiscalidade mais amiga das práticas sustentáveis para as incentivar numa primeira fase, por  ainda não serem mensuráveis do ponto de vista financeiro para os acionistas.
Já David Claudino, diretor-geral da Schneider Electric Portugal – a 10.ª empresa mais sustentável do mundo, segundo a Newsweek –, referiu que “trabalha com barómetros de sustentabilidade e os objetivos são mensuráveis, tendo o seu alcance efeitos ao nível da remuneração variável dos gestores”.
Outra conclusão consensual do último debate do ciclo Energia Inteligente é  a de que uma cidade inteligente constrói-se em rede, com parcerias entre várias entidades, e com o cidadão envolvido através da informação e do incentivo à mudança de comportamentos, como lembrou Ana Fragata, do Fórum Internacional de Cidades Inteligentes e Sustentáveis.

Carla Aguiar (Texto)

Sara Matos/Global Imagens (Fotos)