Alqueva rega mais 30 mil hectares

Fim de ciclo  O projeto mais aguardado de sempre no país concluiu-se há dias com o enchimento das duas últimas barragens

Há mais água no Alentejo. As últimas duas barragens secundárias de Alqueva começaram a ser cheias na semana passada, 14 anos depois de a água ter finalmente começado a brilhar na planície alentejana e seis anos após o arranque da comercialização. Com as novas barragens de Furta Galinhas e de Caliças concluem–se os 69 planos de água do projeto Alqueva e a capacidade de rega atinge este ano os 120 mil hectares, mais 30 mil do que em 2015, revelou o presidente da EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas de Alqueva).
Para exemplificar a relevância desta nova etapa de um sonho secular, José Pedro Salema especifica que “a água que entrou em serviço este ano representa, por si só, uma vez e meia a área do Vale do Tejo”. Segundo aquele responsável, as reservas estão neste momento a 80%, o que é considerado um valor muito razoável. “Mas se é verdade que no ano passado tínhamos água para dez anos, o consumo vai aumentar significativamente.” As previsões apontam para que o consumo quadruplique nos próximos dez anos dos atuais 150 milhões de metros cúbicos para 600 milhões.
Para esse aumento do consumo contribui a expansão da instalação de projetos agrícolas na região abrangida pelo maior lago de água doce da Europa. A plantação de olival foi a primeira vaga de mudança e continua a expandir-se, contando-se já muitos milhares de hectares destinados à produção de azeite, que garantem 40% da produção nacional, com destaque para a Sovena, o primeiro produtor mundial, a atingir mil milhões de vendas/ano.
“Um primeiro balanço possível do impacte da barragem neste setor é que Portugal tornou-se excedentário em azeite, canalizando já importantes volumes para exportação”, observa o presidente da EDIA.
As condições de regadio são muito relevantes para a produtividade e esta aumentou de mil quilos por hectare para 10 mil quilos.
O amendoal é outra cultura a atrair o investimento de vários operadores, e a demonstrar capacidade de gerar receitas extraordinárias, devido à alta de preço da amêndoa. Dignas de registo são ainda a produção de uva sem grainha, ao longo de 300 ha da empresa Vale da Rosa, ou a plantação de papoilas para produção de morfina com  fins medicinais por uma farmacêutica escocesa. Nas hortícolas pontifica o exemplo da Hortomelão, o maior operador de melão.
José Pedro Salema conclui que o regadio tem produtividades muito maiores do que o sequeiro, gerando dez vezes mais riqueza.
Tecnologia para mais eficiência
Face ao previsível aumento do consumo e também das alterações climáticas – que apontam para fenómenos cada vez mais extremos –, a eficiência energética é uma preocupação diária da empresa. Até porque, como observa o seu presidente, “a EDIA não está vocacionada para o lucro, mas para o desenvolvimento da região e se cada um usar bem a água sobra mais para mais”. Quanto mais água for transferida para regadio mais riqueza é gerada”.
Nesta matéria, aquele responsável considera uma sorte ter uma infraestrutura muito moderna, que só começou a fechar comportas em 2002 e que incorpora já tecnologias recentes que reduzem as perdas para valores marginais. Através de “hidrantes”, a água circula fechada num tubo enterrado e há uma espécie de bocas de incêndio que funcionam como torneiras. Por outro lado, e para garantir a maior eficiência energética possível, a EDIA utiliza variadores de velocidade desenvolvidos pela Schneider, uns aparelhos eletrónicos que permitem pôr a bomba a trabalhar em função do pedido.
“Se o pedido que nos é assinalado é de um caudal de 50 metros cúbicos e a bomba está a puxar como se fosse para um caudal de 150 metros cúbicos está a haver desperdício energético.” O variador de velocidade permite precisamente ajustar esse gasto à necessidade concreta. A empresa  promove a utilização racional de água por parte dos operadores agrícolas. “Há ineficiências brutais, é possível poupar entre 30% e 40% de energia com a tecnologia certa.”

Carla Aguiar