Contadores inteligentes chegam a um milhão de casas já em 2017

Luz. Consumidores podem baixar fatura entre 4% e 20% com a telecontagem, ajustando comportamentos. Os novos contadores não vão ser cobrados pela EDP Distribuição, que investe 300 milhões de euros/ano numa rede mais inteligente

 

A instalação de contadores de luz inteligentes está a crescer a todo o vapor, prometendo aos consumidores controlar os seus gastos e reduzir a sua fatura energética. “A nossa meta é chegar até ao fim de 2017 com um milhão de EDP boxes instaladas em casas e mais dez mil postos de transformação ligados”, revelou o presidente da EDP Distribuição, João Torres.
As poupanças com a introdução do sistema de telecontagem podem variar entre os 4% e os 20%, permitindo também que as cidades se tornem mais sustentáveis do ponto de vista energético, à medida que enfrentam consumos sempre crescentes.
Aquele gestor quantifica assim a revolução tranquila em curso, que teve o seu início entre 2007 e 2010 com um projeto-piloto da EDP Distribuição em Évora. O Inov Grid consistiu na instalação de 30 mil contadores da nova geração e numa rede inteligente, que mereceu a distinção europeia de “projeto de referência” do setor, em 2012.
Tendo como objetivo prioritário a eficiência energética, aquela experiência tem já resultados que levam o presidente da EDP Distribuição a garantir que “a elétrica portuguesa está na linha da frente da inovação a nível mundial”.
Segundo uma auditoria independente conduzida por uma universidade, desde que os eborenses tiveram os contadores inteligentes em casa reduziram os seus consumos em 3,9% durante três anos consecutivos. A auditoria constatou ainda que se os consumidores fossem lembrados, via sms, de algumas dicas sobre eficiência energética, o consumo baixava em 6% e quando a intervenção foi localizada em edifícios públicos, a poupança chegou aos 20%.
As poupanças resultam, sobretudo, da alteração de comportamentos. À medida que o consumidor doméstico ou empresarial passa a aceder em tempo real à leitura dos seus gastos fica a saber quanto gasta cada equipamento elétrico em uso e as diferenças de tarifário em função da hora do dia, ganhando margem de manobra para gerir os seus consumos. Por outro lado, o cliente paga apenas o que consome, sem surpresas com acertos, para baixo ou para cima, em função das faturações por estimativa.
Um exemplo de mudança comportamental registou-se num museu de Évora, quando se verificou que o pico de consumo era logo cedo de manhã, quando o pessoal de limpeza acendia todas as luzes de uma vez, independentemente de só usarem uma área de cada vez.
“Já temos 400 mil postos de transformação preparados para ear ligados a EDP boxes em casa dos clientes e mais de cem mil consumidores domésticos a fazerem a sua faturação através deste sistema”, revelou o presidente da elétrica nacional. Na Área Metropolitana de Lisboa, até Setúbal, contam-se cerca de 130 mil.
A transformação em curso na EDP Distribuição, com integração crescente de tecnologia inovadora, e know how nacional, tem sido gradual e nem sempre conhecida do grande público. Mas tem representado um esforço de investimento contínuo da ordem dos 300 milhões de euros anuais. Na última década o investimento rondou os três mil milhões de euros.
Cobrar ou não cobrar ao cliente?
A clássica questão de fazer ou não repercutir o custo dos contadores inteligentes na fatura do cliente esteve em debate num encontro de quadros da EDP Distribuição na semana passada. Sobre este ponto, o presidente da empresa é perentório: “Não há sobrecusto de operação, pelo que não tem de se refletir na fatura do cliente.”
Segundo aquele engenheiro, “essa questão podia colocar-se há dez anos quando estes equipamentos tinham um custo da ordem dos cem euros, mas com a sua massificação os preços baixaram muito, para a casa dos 30 euros, o preço de um tradicional”.
E já nem faz sentido fazer comparações, pois os contadores antigos já estão a ser descontinuados pelos fabricantes, pois sabem que o futuro passa por esta nova geração de equipamentos, que têm uma duração média estimada em 15 anos. A concorrência é uma aliada do processo e a EDP conta com sete fornecedores, alguns dos quais portugueses.
Os contadores inteligentes são, no entanto, apenas a ponta do iceberg, pois para poderem funcionar precisam de redes inteligentes (smart grids) de energia, desde a alta tensão até às casas. E é nesse processo que a EDP mais tem investido, por exemplo, em soluções de automação e de sensorização da rede, no fundo, na digitalização de toda a operação. Neste processo a empresa tem integrado algumas das soluções tecnológicas desenvolvidas pela Schneider Electric que permitem significativos ganhos de eficiência e redução de tempos na identificação e atuação face a uma avaria na rede, explicou aquele gestor.
“Enquanto antigamente tínhamos de enviar um piquete perante a sinalização de uma avaria, hoje o sistema de automação identifica a avaria no momento em que ela acontece e toma a decisão que for a mais adequada.” Graças a este conjunto de evoluções tecnológicas o tempo de interrupção de eletricidade por avaria na rede passou da ordem dos 300 minutos há dez anos para menos de uma hora nos últimos cinco anos, indicou aquele responsável.
Outro grande desafio da EDP Distribuição e das redes inteligentes de energia é o de fazer a integração de diversas fontes energéticas numa só rede. Como explica João Torres, cerca de 95% das energias renováveis estão ligadas à rede da EDP e é expectável que venha a crescer a quantidade de pessoas a querer fazer nas suas casas microgeração, os chamados prosumers. O sistema tem de se adaptar ao crescimento destas novas realidades. João Torres admite que com o estimado crescimento das áreas metropolitanas e da utilização de veículos elétricos a gestão da rede elétrica nas cidades vai ganhar novas complexidades.
A esse propósito, a EDP Distribuição está envolvida em 15 projetos comunitários com base em Bruxelas em parceria com universidades para estudar como a rede  elétrica vai ter de evoluir para responder a novas demandas. “Porque as cidades inteligentes do futuro têm de assentar em redes inteligentes”, observa.
Outro desafio é tentar melhorar a conciliação entre a procura e a oferta. Por exemplo, se sabemos que vamos ter mais vento a determinadas horas do dia, o consumo pode ser dirigido para esse período.
Renovar a iluminação pública
A EDP pretende introduzir o sistema de telecontagem em todos os sistemas de iluminação pública, o que implica mudar mais de 60 mil postos de transformação. Esta transformação dá-se ao mesmo tempo em que começa a ser feita uma substituição por lâmpadas LED na iluminação municipal, que é responsável por cerca de 3% do consumo total de energia em Portugal.
Dentro de portas, a EDP Distribuição também também tem preocupações com eficiência energética, tendo adotado soluções técnicas da Schneider no seu edifício-sede em Lisboa, e reduzido a fatura em 37%, o que lhe valeu um prémio em 2011, tendo feito o mesmo num dos seus novos edifícios na cidade do Porto.

Carla Aguiar (Texto)

Orlando Almeida/Global Imagens (Foto)