Vamos ter 100 sensores de ligação ao Big Brother até 2030

Digital. À medida que nós e os equipamentos estamos mais interligados, e a todo o momento, a informação que transmitimos vai aumentar o tráfego digital em 20 vezes já em dois anos. Cresce o consumo energético e a exposição dos dados de cidadãos e empresas. Em Aveiro estuda-se já a transmissão de energia sem fios, para reduzir consumos e entrar na era 5G

 

A vertiginosa inovação da era digital está a suceder-se a um ritmo tal  que cria realidades sempre além do imaginado. Mas se as previsões ainda valem alguma coisa, o futuro próximo vai ser cada vez mais digital, com crescente interconectividade entre as pessoas e os objetos e destes entre si. Um percurso que conduz a gigantescas bases de dados (Big Data), elevados consumos energéticos e que coloca, por outro lado, riscos à segurança e privacidade dos dados de cidadãos e empresas. Uma das principais conclusões do debate Energia Inteligente Conectada a Todo o Lado.
“Por volta de 2030, prevê-se que cada pessoa terá perto de cem sensores a si associados”, revela o professor da Universidade de Aveiro e do Instituto das Telecomunicações, Nuno Borges de Carvalho, enquanto hoje já temos cerca de dez, entre Bluetooth, GSM, GPS, etc. Um cenário que culminará num aumento do consumo energético que em poucas décadas se estima em 50%, associado também às exigências da projetada proliferação das metrópoles, caso não se avance rapidamente em soluções de eficiência energética.
Também por isso, o departamento de Eletrónica da Universidade de Aveiro está a coordenar um projeto, em associação com universidades e empresas europeias, para um sistema de transmissão de energia sem fios. “O objetivo é que as baterias dos equipamentos não estejam ligadas à corrente mas através de ondas de rádio, uma espécie de wi-fi de transporte de energia”, admite aquele engenheiro eletrotécnico.
E porque as exigências ambientais também nos encaminham para uma descarbonização, as investigações em curso passam também por tornar os veículos elétricos mais viáveis e eficientes. “Se calhar vamos ter as próprias estradas a alimentar, com energia sem fios, os camiões TIR, que para funcionarem a eletricidade têm de ter baterias com um peso incomportável.” Aquele investigador aponta a existência de um exemplo nesse sentido já existente na Coreia do Sul. Outros projetos citados são os que estão a ser desenvolvidos pela Scania e a Volvo, que passam por colocar uma espécie de cantenárias nas autoestradas para TIR autónomos, faltando ainda garantir que a trajetória é absolutamente predefinida.
Cenários de um mundo que está aí à porta e em que “todos os anos o tráfego digital cresce 20%”, lembra João Rodrigues, responsável da Schneider Electric, para acrescentar que em dois anos, este tráfego vai crescer 20 vezes mais e que “em 4 anos os atuais 18 biliões de dispositivos que temos interconectados vão passar para 50 biliões em todo o mundo”.
A multiplicidade de fins para os sensores cada vez mais sofisticados que transmitem informação em tempo real – aliados a uma nova capacidade analítica  dos computadores – permite que dados aleatórios sejam tratados e transformados em informação racional, explicou Rui Queiroga, vice-presidente da Schneider para a indústria. “Estes sensores permitem, por exemplo, a monitorização do comportamento dos condutores, que tanto permite negociar preços mais baixos com as companhias de seguro – e também o contrário – como enviar alertas sobre necessidades de manutenção dos carros”, exemplificou aquele responsável.
Com aquele exemplo, abriu-se o mote para a discussão em torno da segurança dos dados, com Aurelio Blanquet, gestor da EDP Distribuição, a admitir o Big Data é uma espécie de microscópio eletrónico que se arrisca a ser o Big Brother. “Antes o discurso europeu estava centrado na internet para todos, agora estamos na era da internet de tudo, daí a importância da cibersegurança, em que a EDP está particularmente empenhada”, assegurou aquele responsável.

Carla Aguiar (Texto)

Paulo Spranger (Global Imagens)