Setor da água tem margem para baixar desperdício até 25%

Ambiente. Enquanto as perdas de água na rede da EPAL são de apenas 8%, a nível nacional esse desperdício pode chegar aos 30%. Uma margem significativa para investir na melhoria da eficiência energética num setor essencial para o ambiente

 

As oportunidades de obter ganhos de eficiência energética no setor da água e do saneamento básico são da ordem dos 20% a 25%, de acordo com estimativas recentes do Banco Mundial. É nessa margem de manobra que empresas como a EPAL apostam no sentido de evitar o desperdício e de preservar um recurso que se apresenta cada vez mais escasso, como é o caso da água.
“Este setor caracteriza-se por investimentos a muito longo prazo, de 30 a 50 anos, partindo de projeções demográficas que nem sempre se concretizam, ao mesmo tempo que exige capital intensivo, o que se traduz num constante desafio de gerir o risco de variáveis que não se controlam”, observa Pedro Fontes, gestor de ativos da EPAL.
Mas se é verdade que existe uma elevada componente de risco na gestão, como também ressalva aquele engenheiro, “os investimentos em melhoria da eficiência energética têm um período de retorno curto da ordem dos cinco anos, ou seja, pagam-se a si próprios”.
O que é então necessário para conseguir alcançar as significativas oportunidades de poupança assinaladas no relatório do Banco Mundial? Segundo Pedro Fontes, “o processo de avaliação energética a priori não requer processos muito sofisticados, pois há meia dúzia de processos industriais onde se concentram os grandes consumos”. O importante, assinala, é “dotar as instalações de mais flexibilidade e dispor de informação apurada em tempo real, de modo a gerir os riscos da maneira mais eficiente”. Isto pode passar pela colocação de sensores de elevada sensibilidade nas instalações ou pelo desenvolvimento de soluções tecnológicas adaptadas a necessidades específicas como, por exemplo, aqueles que a Schneider Electric produziu para a empresa, também na sua vertente de saneamento básico.
A EPAL tem, aliás, investido em  sistemas de controlo de gestão de redes, como o WONE, para diminuição das perdas de água na rede, área onde é um dos líderes mundiais do setor, colocando Lisboa no topo da lista das cidades mundiais com rede de abastecimento de água mais eficiente, lembram os seus responsáveis.
“Na EPAL as perdas de água na rede são de apenas 8%, o que é considerado muito bom em termos internacionais”, explica Pedro Fontes. Já no conjunto do sistema nacional de captação e distribuição de águas as perdas nas redes podem chegar aos 30%, o que representa a margem de manobra que ainda existe para progredir. Nem todas as empresas que integram o grupo Águas de Portugal estão nas
mesmas condições. Alguns númros demonstram isso mesmo. “Em 2010, a EPAL consumia 150GW/h por ano, tendo reduzido esse consumo para 120GW/h por ano em 2015”, revelou Pedro Fontes.
Uma poupança que se traduz em valores muito substanciais que podem alcançar centenas de milhares de euros. Os engenheiros preferem usar a expressão dos nega watt, aqueles watts que não chegam sequer a ser produzidos, traduzindo o mesmo indicador de poupança.
Tendo também como objetivo ganhos de eficiência, desta feita financeira, o Grupo Águas de Portugal, em que a EPAL se insere, assinou um contrato que entrou em vigor neste mês, segundo o qual as empresas que o compõem passam a comprar em conjunto a energia elétrica, em concurso público internacional, garantindo ganhos de escala assinaláveis. Esta simples solução irá permitir uma economia para a Águas de Lisboa e Vale do Tejo – EPAL, da ordem dos 300 mil euros
“As preocupações com a gestão de energia não são necessariamente novas”, como lembra o gestor de Energia da EPAL, Rui Fernandes. “Estas preocupações são quase tão antigas como a antiga Companhia de Águas de Lisboa [CAL].” Aquele engenheiro, há vários anos na empresa, recorda-se de que os primeiros regulamentos e incentivos à melhoria da eficiência começaram nos anos 80, e depois com a introdução de sistemas de compensação de energia reativa ou sistemas de telegestão para telecomandar a gestão dos fluxos de água.
Uma visita à Estação Elevatória dos Olivais, construída em 1947, é uma prova viva de que equipamentos e tecnologia antiga ainda estão de boa saúde. Ali, escondida por um parque verde, mesmo junto à Gare do Oriente, a estação elevatória do Estado Novo exibe equipamentos de bombagem em ferro  e  outros relacionados com energia elétrica que são os responsáveis por elevar a água do subsolo até ao topo dos prédios de Lisboa.
“A água é captada no rio Tejo, em Valada, e vem da barragem de Castelo de Bode, misturando-se depois em Vila Franca de Xira, numa superconduta que conduz a água para aqui [Olivais], Telheiras e Barcarena”, explica o engenheiro Rui Fernandes.

Inovação no saneamento
O tratamento de águas residuais é outra das fortes componentes da atividade da EPAL, setor em que nos últimos anos tem sido feito um investimento significativo na minimização do impacto ambiental das estações de tratamento de águas residuais (ETAR). Antes de ser devolvido ao meio ambiente o ar contaminado tem de ser tratado. Segundo os técnicos da EPAL são necessárias sete a 15 renovações de desodorização por hora numa ETAR para minimizar o mau cheiro. Mas para otimizar a eficiência energética e os custos é necessário adaptar esse esforço às necessidades, que são diferentes no inverno e no verão. Foi no de-senvolvimento de ferramentas que garantam esta flexibilidade que a Schneider foi parceira da EPAL, para além de sistemas eficientes de ventilação.
Mudanças foram igualmente introduzidas no modo de fazer a agitação das águas das ETAR, através de projetos-piloto patrocinados pela Schneider, tendo a energia necessária para realizar esse processo baixado de 15W por m2 para apenas 5W. Outras situações em que as soluções de flexibilidade são importantes sucedem quando há a exigência de responder a uma elevada variação de consumos devido à sazonalidade da utilização na costa ou no Interior, face à chegada dos turistas ou emigrantes.
“Muitas vezes no Interior temos a ETAR, que praticamente só trabalham no verão” e não há necessidade de estarem preparadas  para estar sempre a operar como se estivessem a utilizar a sua capacidade máxima. Aqueles projetos-piloto, em parceria com a Schneider, começaram a ser testados há cerca de dois anos na Águas do Oeste, mas estenderam-se a outras empresas.
De entre as principais ferramentas de gestão para melhorar a eficiência energética numa empresa como a EPAL está seguramente o planeamento das operações em função das horas, a que correspondem diferentes tarifários. Entre as 02.00 e as 04.00 da madrugada o custo da energia é cerca de metade da hora de ponta, que se regista entre as 09.15 e as 09.30, explica o engenheiro Pedro Fontes.

Carla Aguiar (Texto)

Orlando Almeida (Fotos/Global Imagens)