Gestores deixam 80% das empresas fora da era digital

Desafio. Portugal precisa de uma revolução digital: só 10% das empresas utilizam a internet para fazer negócios, quando no Reino Unido a economia digital  já representa 10% do PIB. Os especialistas defendem uma aposta massiva na requalificação dos gestores nacionais com intermediação do governo. Ao mesmo tempo, o país também é um exemplo de vanguarda

 

Na era da interconetividade, do e-commerce e do e-government, 80% das empresas portuguesas ainda estão fora da economia digital, sem tirar partido das oportunidades oferecidas pela internet à escala global. “Só 30% têm presença online e, destas, apenas uma minoria de 10% utiliza a plataforma digital para fazer negócio.” A realidade descrita por Alexandre Nilo Fonseca, presidente da Associação da Economia Digital , traça um cenário preocupante sobre as perspetivas de boa parte das empresas nacionais que “ainda estão na década de 1990”.
“Temos de fazer uma grande transformação digital”, considera aquele responsável, sublinhando que tal exige uma aposta massiva na aquisição de competências dos gestores portugueses nestas matérias, através, por exemplo, de programas institucionais para a promoção da consultoria digital.
Porque, como diz Pedro Nobre, arquiteto de soluções IT da Schneider Electric , “hoje já não são os peixes grandes que comem os pequenos; são os peixes rápidos que comem os lentos”. Aquele técnico defende igualmente que o Ministério da Economia fomente este mind set para a digitalização dos gestores, sob pena de uma parte significativa das empresas desaparecer, quando colocada sob a concorrência digital à escala mundial.
Esta realidade convive em paralelo com um país que tem das melhores infraestruturas de banda larga móvel do mundo e de serviços de televisão interativa e que apresenta soluções de e-government no top 3 mundial. Por isso, os especialistas que participaram ontem na conferência da Schneider Electric, no auditório do DN, convergem na conclusão de que “estamos a caminhar para uma sociedade em que vai amplificar-se a infoexclusão, com pessoas e empresas muito digitalizadas e outras totalmente a leste deste paradigma”. Enquanto uma parte do país vive ainda no passado, outra está na vanguarda, investindo na automação, nas tecnologias de informação, nos centros de dados e explorando, com êxito internacional, as potencialidades da era digital.
É neste contexto que surge também a preocupação com a eficiência energética. Sabendo-se que os data centers são grandes consumidores de energia – e já têm uma emissão carbónica em termos mundiais ao nível da indústria aeronáutica –, “o nosso desafio é reduzir o desperdício e desenvolver soluções inovadoras cada vez mais eficientes do ponto de vista energético e ambiental”, referiu a vice-presidente data center da Schneider Electric para a Europa, Médio Oriente e África. Segundo Maria de Lurdes Carvalho, prevê–se que o consumo de energia pelas tecnologias de informação quadruplique nas próximas décadas, ao mesmo tempo que vai continuar a verificar-se um êxodo populacional do interior para as grandes cidades. Isto cria novos desafios para a gestão da energia, dos transportes, da segurança e da proteção civil, exigindo cidades mais”inteligentes” e sistemas que as suportem, como as que a multinacional tem desenvolvido, em conjunto com a IBM.
Não há, portanto, como fugir da era digital. Mas Portugal apresenta um desequilíbrio na sua “balança digital”: compramos três mil milhões de euros online, vindo metade desse volume de fora e, deste, 50% tem origem na China; em contrapartida, a Europa compra 500 mil milhões de euros online e quase nada a Portugal, indicou Alexandre Nilo Fonseca.

Computação cognitiva
Porque a rapidez é a marca da nova era, o próximo passo em que empresas como a IBM estão empenhadas é aquilo que é designado como computação cognitiva. Trata-se de passar para o estádio do raciocínio lógico e interpretação a variedade de informação armazenada em bases de dados. “Esta capacidade pode, por exemplo, ajudar médicos a fazer diagnósticos e a tomar decisões de acordo com as descobertas mais recentes, pois ninguém consegue acompanhar a quantidade de artigos científicos que é produzida diariamente”, explicou António Pires dos Santos, diretor de desenvolvimento de negócios da IBM.
A prioridade para esta área é total, tendo a IBM criado uma unidade específica para a computação cognitiva. Aquele gestor aponta, porém, falhas nos curricula dos cursos de Engenharia que ainda não integram esta nova área, apelando à sua atualização e à reciclagem profissional dos professores. Também por isso, a IBM está a desenvolver centros de competências com as universidades de algumas cidades.

Interoperabilidade
Outro grande desafio da era digital é garantir a interoperabilidade dos sistemas ao nível da administração pública, admitiu o presidente da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública (ESPAP), Jaime Quesado, depois de o investimento nas infraestruras estar concluído.
Curiosamente, “Cabo Verde tem um sistema de e-government mais avançado, do ponto de vista da interoperabilidade da administração, que é um case study, desenvolvido por empresas portuguesas, com participação da Schneider”, revelou Pedro Nobre.
No universo universitário, Pedro Rosa, coordenador de TI da Direção-Geral do Ensino Superior, destacou os grandes investimentos feitos em anos recentes nas redes wireless e a elevada cobertura das plataformas de e-learning. “A capacidade de as universidades terem data centers para alojar as suas bases de dados é absolutamente crítica para a sua modernização”, defendeu, lamentando a contenção de recursos financeiros.

Carla Aguiar (Textos)

Leonardo Negrão/Global Imagens (Fotos)