“A indústria tem de repensar a forma como usa data centers”

Entrevista com Kevin Brown – O homem que lidera a estratégia de desenvolvimento da Schneider no negócio dos centros de dados defende que há muito desperdício financeiro e energético nas instalações tradicionais

De que forma é que as abordagens tradicionais de instalação de data centers estão a acompanhar a evolução da “internet das coisas”?

Se aplicarmos hoje a tecnologia associada à “Internet das Coisas” num data center com um design tradicional vamos registar um desperdício enorme. Na minha opinião, este é o momento de a indústria repensar a forma como usa data centers.

O que explica este desperdício?

Durante muito tempo acreditou-se que haveria uma inevitável subida do consumo de energia dos servidores no futuro. O que verificamos é que os valores mais realistas hoje – fruto dos avanços tecnológicos dos últimos anos – rondam um intervalo médio de consumo de energia que varia entre os 5 kW e os 15 kW por servidor. Temos hoje um conjunto enorme de infraestruturas pensadas e construídas com capacidade para albergar servidores que consumissem 60 kW, mas que só utilizam cinco, o que é um desastre do ponto de vista da eficiência energética.

Uma solução que tem sido apresentada para dar resposta a esta questão é a construção de data centers modulares. O que são?

Se pensarmos numa obra ou num espaço de construção de um edifício e olharmos para o trabalho de quem está a tentar montar um data center ao mesmo tempo que decorrem os restantes trabalhos de construção, percebemos que é uma situação caótica. Há dezenas de milhares de conexões, há vários ele- mentos que não se consegue controlar e que colocam em risco o bom funcionamento da infraestrutura. Quando recorremos a um data center prefabricado retiramos esse caos do terreno para o colocar num ambiente controlado como uma fábrica. Desta forma podemos conectar todos os elementos com mais segurança e reduzir todos os riscos associados. Depois tudo o que é preciso é levar a infraestrutura já montada para o local de construção.

Kevin Brown é um engenheiro mecânico de Boston, Estados Unidos, sobre o qual recai a responsabilidade de articular a visão da Schneider Electric para o futuro dos data centers com as ofertas de produtos apresentadas pela empresa ao mercado. Com mais de 20 anos de experiência profissional, ocupou já vários cargos na Schneider Electric, nomeadamente na gestão e desenvolvimento de produtos, marketing e vendas.

Quais são as principais vantagens dos data centers pré-frabricados?

Um sistema modular ou prefabricado é muito mais rapidamente instalado que uma infraestrutura tradicional. Os clientes pedem-nos que consigamos ter tudo pronto em oito semanas, cinco semanas, e a tendência será sempre para que este prazo seja cada vez mais reduzido. Neste ponto em concreto, uma solução modular é muito mais adequada do que uma instalação fixa tradicional. Além da rapidez de instalação, esta solução já mostrou que é muito mais previsível. No dia em que se liga um data center destes no local desejado a probabilidade de que funcione exatamente da forma como foi conceptualizado é muito mais elevada.

Tem havido também cada vez mais  procura de micro data centers. Como são estas versões?

Já não precisamos só de data centers no seu formato tradicional. Podemos ter vários micro data centers num só edifício, o que reduz muito os custos e aumenta a eficiência energética. Os micro data centers são, essencialmente, uma outra forma de modelos prefabricados, mas com uma dimensão muito mais reduzida. Em muitos casos as aplicações desenvolvidas são de tal maneira específicas que não precisam mais do que um servidor. Basicamente, há três versões diferentes de micro data centers: o Smart Bunker FX, que é uma versão industrial muito robusta – podemos bater-lhe com um taco que nada acontecerá –, o Smart Bunker CX, que parece mais um móvel do que um data center – que funciona de uma forma quase inaudível e que se mistura facilmente com o resto do mobiliário de um escritório. E há também a versão SX. Esta versão utiliza uma sala já existente e transforma-a num data center, de uma forma eficaz e integrada.

Quer dizer que estes modelos são o futuro dos data centers?

É impossível prever o futuro, mas a verdade é que tudo isto está a mudar… Até aqui, a ideia era que, para haver um aumento da eficiência e uma redução de custos, teríamos de construir centros maiores. Hoje sabemos que não é assim. Particularmente em setores de atividade como a exploração de petróleo, as minas ou o setor militar, a tendência é dispersar em pequenos centros o que antes seria consolidado num enorme data center. Em vez de construir um data center com capacidade para um Mw, a tendência será construir para a mesma instalação cinco data centers com uma capacidade individual de 200 kW.

Que papel ocupa a Schneider Electric nesta evolução?

A Schneider Electric tem um portfólio de produtos muito alargado que nos coloca na posição de sermos  realmente os únicos com capacidade para dar resposta aos principais problemas. Temos os conhecimentos, temos o equipamento e temos a capacidade de fornecer energia. Estamos a fazer progressos enormes na forma como podemos finalmente começar a conectar todos estes elementos. Hoje, os data centers são demasiado complexos, e nós temos as ferramentas que permitem a sua simplificação gradual.

João Cristóvão Baptista (texto)

Carlos Manuel Martins (foto)