Tomar será uma cidade inteligente com a ajuda do novo data center

Evolução. A criatividade dos técnicos do CENIT e o novo centro de dados do Instituto Politécnico de Tomar vão aliar-se para transformar Tomar numa smart city. O data center pode albergar informação de várias entidades públicas e privadas

Conhecida pela Ordem dos Templários, pelo Convento de Cristo e pela Festa dos Tabuleiros, a pacata Tomar pode vir a destacar-se como protótipo de uma smart city ou cidade inteligente. O que permite tornar essa perspetiva em realidade é o know-how do Centro de Inovação Tecnológica de Tomar (CENIT) associado ao novo data center do Instituto Politécnico de Tomar.

“A capacidade do centro de dados é gigantesca”, diz o presidente do instituto, Eugénio de Almeida, estimando que, depois de transferir para lá os servidores do instituto, poderão também passar os dados de várias entidades, desde empresas a autarquias ou serviços públicos da região, nem sempre dotadas das infraestruturas mais adequadas para garantir a segurança dos seus dados e o eficaz funcionamento dos seus sistemas.

Neste momento, os chamados “bastidores” da caixa-forte de informação (uns módulos altos e retangulares) estão apenas preenchidos com os dados do CENIT. Esta entidade nasceu de uma parceria entre o IPT e a SoftInsa/IBM, em 2013, e foi o seu crescimento e a necessidade de reforço de rede a funcionar como ignição para a construção daquela infraestrutura.

“Do ponto de vista tecnológico e de recursos humanos temos aqui condições para avançar num sentido que nos leva às smart cities”, admite Eugénio de Almeida, acrescentando que “também existe da autarquia disponibilidade para tal”. Em causa poderão estar, por exemplo, o desenvolvimento de aplicações para a gestão e controlo de tráfego na região, exposta a alguns eventos de grande afluxo de pessoas – como sejam as peregrinações a Fátima e a Festa dos Tabuleiros. Mas também a prevenção de riscos naturais, como as cheias que assolam a região do MédioTejo, no inverno, e os incêndios que fustigam os concelhos limítrofes nos meses de verão.

Investimento de 1,2 milhões

E é assim, com criatividade e inovação, que o investimento de 1,2 milhões de euros no centro de dados – com recurso a financiamentos no âmbito do último quadro comunitário de apoio – poderá também ser rentabilizado, através da prestação de serviços e angariação de receitas para o instituto.

Adjudicado ao consórcio Comta/Schneider Electric, que forneceu as soluções tecnológicas, o centro de dados do IPT, construído em parceria com a IBM, tem a particularidade de ser o único construído de raiz em Portugal, e na Europa, com uma tecnologia inovadora, capaz de permitir o seu funcionamento durante metade do ano sem consumo de energia.

“É um sistema muito inovador, quer do ponto de vista da eficiência energética, quer da ocupação minimalista do espaço, pois dispensa infraestruturas pesadas de refrigeração”, explica Fátima Abelha, gestora da Schneider que acompanhou o projeto.

“Enquanto a temperatura estiver entre os 20 e 27 graus, não há necessidade de ter o sistema a funcionar, aproveita-se o ar exterior para a ventilação; se a temperatura exterior aumentar acima daqueles valores, então entram em funcionamento os condensadores”, exemplifica aquela responsável.

Esta característica, que permite cerca de três mil horas em funcionamento free cooling, é particularmente relevante para poupar custos, tendo em conta que os centros de dados são grandes consumidores de energia, exigindo a manutenção de uma temperatura baixa e estável.

Por outro lado, o sistema foi concebido de forma modular, de modo a possibilitar o desenvolvimento gradual do centro de dados, com capacidade para albergar um volume imenso de informação, de várias entidades, ao longo dos cerca de cem metros quadrados que ocupa o edifício, ainda com poucos “bastidores”.

Aquela característica de escalabilidade permite que o investimento neste tipo de tecnologias possa ser planeado e realizado à medida das necessidades, ao mesmo tempo que acomoda novas transferências de redes, sem disrupções. Esta capacidade é particularmente relevante, pois possibilita que o centro de dados vá crescendo sem causar interferências no ambiente em redor.

Além do sistema free cooling, a Schneider desenvolveu também um sistema amigo do ambiente , o eco-breeze, que diminui a emissão de gás.

Outro pormenor destacado pelo responsável da IBM, que se associou ao projeto, Paulo Dias, é a capacidade de as instalações resistirem ao fogo durante duas horas, permitindo que, em caso de incêndio,os dados sejam protegidos.

Ainda neste capítulo de proteção contra o fogo, Paulo Dias sublinha a existência de um sistema de prevenção precoce de incêndios, através de sensores de alta sensibilidade, capazes de captar certas partículas no ar que precedem um incêndio. Um conjunto de características que leva os técnicos da Schneider e da IBM ligados à sua conceção a apelidarem o centro de dados como “altamente inovador”.

Empregabilidade a 100%

Existe um antes e um depois do CENIT na vida do Instituto Politécnico de Tomar e dos seus alunos. Agora, os estudantes das áreas ligadas às engenharias e tecnologias de informação e comunicação não têm problemas em encontrar emprego.

O segredo da elevadíssima taxa de empregabilidade dos cursos de Engenharias e Gestão daquele instituto, “quase em torno dos 100%”, está, de resto, naquele centro tecnológico, que tem absorvido uma grande parte dos alunos formados naquelas especialidades.

“A interligação entre o Instituto Politécnico de Tomar e o CENIT está a ser de tal modo crescente que estamos a fazer um reajustamento curricular para adaptar os cursos a necessidades concretas identificadas pelo CENIT,com o objetivo de aumentar a empregabilidade dos nossos alunos”, adianta o seu presidente, Eugénio Almeida.

Quando o centro foi lançado, fruto de um protocolo entre o IPT, a Câmara Municipal de Tomar e a IBM, tinha como horizonte atingir os 200 postos de trabalho no espaço de dez anos. A meta foi largamante ultrapassada. “Neste momento, passados apenas três anos, empregamos já 250 pessoas, 60% das quais ex-alunos do politécnico”, exemplifica o diretor de informática da SoftInsa, João Tomé, visivelmente satisfeito com a superação das expectativas.

O IPT, com 400 trabalhadores, e o CENIT, com 250, figuram, aliás, entre os maiores empregadores da região – a par da autarquia e do hospital –, mostrando que a aposta na tecnologia e na inovação está a revelar-se compensadora e geradora de riqueza.

“Para nós é importante que os projetos que desenvolvemos se traduzam também num ganho para a comunidade onde estamos inseridos”, resume o diretor de Informática da SoftInsa, no que é acompanhado pelo presidente do Politécnico de Tomar.

Uma nova pós-graduação

Aquele estabelecimento de ensino alberga cerca de dois mil alunos, a que acrescem 300 do polo de Abrantes. Além das licenciaturas,em áreas muito diversificadas, o instituto também tem programas de mestrado, nomeadamente para o grupo dos maiores de 25 anos.

Da oferta formativa consta ainda a recente pós-graduação em Business Intelligence, da Tomar Business School, que nasceu de uma parceria entre o Instituto Politécnico de Tomar e a SoftINSA, e que teve a sua primeira edição no passado ano letivo.

Ao lançar aquela pós-graduação, a Tomar Business School, integrada no Instituto Politécnico de Tomar, pretendeu responder a uma necessidade que se verifica no mercado de trabalho. “As empresas necessitam cada vez mais de recursos humanos com competências para integrar a informação, gerir tecnologias de análise e práticas de negócio inteligente”, explicam os responsáveis.

O programa da pós-graduação faculta a integração entre conceitos teóricos de gestão de tecnologias de informação e de ciências que lhe servem de suporte, com a utilização prática de aplicações  e ferramentas de business intelligence.

Carla Aguiar (texto)

Gustavo Bom (fotos)