Indústria inteligente prospera mas sofre com falta de técnicos

Desafio. As empresas portuguesas estão a investir na chamada quarta revolução industrial. A interconectividade dos equipamentos aumenta, as exportações de máquinas crescem 15% ao ano e a oportunidade de ganhos de competitividade é real. Mas a falta de quadros qualificados ameaça, a prazo, o potencial aberto por esta nova reindustrialização.

Existem no mundo cerca de mil milhões de dispositivos conectáveis, ou seja, com capacidade de transmitir dados. Este  é o primeiro nível da nova era das fábricas inteligentes e da internet das coisas, que estamos a viver. “Mas estima–se que já em 2020 os equipamentos com conectividade ascendam a 50 mil milhões, o equivalente a cinco vezes mais”, disse ontem Rui Queiroga, vice-presidente da Schneider Electric Portugal para a indústria, na primeira conferência Global Media/Schneider Electric, subordinada à Energia Inteligente.
Aquele salto gigantesco, previsto em apenas quatro anos, fornece uma imagem das oportunidades que estas novas tecnologias trazem à reindustrialização portuguesa  como pilar do crescimento económico, acrescentou Rui Queiroga na conferência realizada no auditório do DN.
Mas ao mesmo tempo que as empresas portuguesas vão tentando acompanhar a era 4.0 – o que se tem traduzido, por exemplo, num crescimento anual de 10 a 15% nas exportações de máquinas – enfrentam um défice de recursos humanos qualificados para esta fase industrial.  A generalidade dos oradores concordou em que o potencial de desenvolvimento desta nova reindustrialização “pode esbarrar num défice de profissionais” das mais diversas áreas de engenharia, com competências para pôr os equipamentos a falar entre si, com a rede e o utilizador final.
“A concorrência internacional por talentos nesta área tem tendência a agravar-se, sabendo-se  por exemplo que 50% dos engenheiros na Alemanha estarão reformados nos próximos dez anos”, lembrou o diretor da Unidade de Automação Industrial do INEGI, Francisco Freitas.
Como consequência desse défice, que é geral, “várias embaixadas e empresas estrangeiras organizam ações em Portugal para atrair jovens engenheiros portugueses”, sublinhou aquele engenheiro de máquinas.
A chamada quarta revolução industrial, que faz a ligação da fábrica à internet das coisas, permitindo transmitir dados em tempo real, como consumos de energia, de sistemas de climatização, de equipamentos em linha de produção,  entre outros, permite também considerável redução de custos. Rui Queiroga apontou como exemplo disso mesmo “um novo sistema de automação de variação de velocidade de motores” desenvolvido pela Schneider, que permite baixar o consumo energético até 30%.
No mesmo sentido, Óscar Arantes, diretor de energia e projetos industriais estratégicos da The Navigator Company (antiga Portucel–Soporcel), que fatura 1,6 mil milhões de euros e tem na energia 15% dos seus custos de produção, exemplificou a recompensa do investimento em maquinaria da nova geração. “Conseguimos reduzir em 30% a 35% os custos energéticos e o objetivo é reduzir o consumo energético 2% ao ano até 2020, com a renovação de equipamento nas fábricas mais antigas.” O resultado que se espera obter é tudo menos negligenciável: uma poupança de quatro milhões de euros anuais. Poupanças a prazo que requerem investimentos avultados. A papeleira, que tem a maior fábrica de papel do mundo e vende para 128 países, investiu 150 milhões de euros no ano passado.
Nem todas as empresas nacionais têm, no entanto, capacidade para investir somas avultadas em inovação, razão pela qual Luís Alves Monteiro, membro do Conselho de Indústria da CIP e ex-secretário de Estado da Indústria, defendeu uma nova orientação: “As políticas públicas têm de incentivar a inovação e a competitividade, pois não se cria emprego de qualidade sem novas empresas.” Na sua opinião, isso não tem acontecido, desafiando por isso  os governantes a criar um crédito fiscal para investimento, repensar a política económica e ajustar e flexibilizar os programas de financiamento, como o Portugal 20-20, às necessidades concretas das empresas.
Já o presidente da Agência Nacional de Inovação (ANI), José Carlos Caldeira, optou por destacar o leque de instrumentos  à disposição das empresas: desde a iniciativa europeia Fábricas de Futuro, nascida em 2009 para financiar a introdução das tecnologias de informação na indústria – “  em que “Portugal tem participado ativamente” –, até ao programa Portugal 20-20, com uma linha dedicada à eficiência energética, com concursos abertos até 15 de março. “As empresas estão a aderir, há PME a beneficiar desses apoios e um programa de incentivos fiscais para o investimento em I&D que apoia mais de mil empresas por ano”, adiantou.
Uma área com potencial de de-senvolvimento nesta nova era industrial é a do software para a cibersegurança, destacou Rui Monteiro, OEM manager da Schneider Electric. A multinacional, que tem a distribuição elétrica como principal área de negócio, está a diversificar para a automação e para o desenvolvimento de soluções de engenharia adaptada a cada cliente industrial, depois de ter adquirido um fabricante de máquinas de topo.
Com um leque de 150 engenheiros no mundo, a Schneider tem desenvolvido parcerias estratégicas como, por exemplo, a que mantém com a jovem portuguesa Pulse Energy Systems, que consegue aplicar energia eletromagnética na produção de alimentos, aumentando assim a produtividade.Texto – Carla Aguiar/ Fotos- Pedro Rocha