Solução portuguesa revoluciona indústria alimentar mundial

Eletroporação. A Energy Pulse Systems, com a Schneider Electric, desenvolveu uma solução revolucionária para a indústria alimentar que aumenta a produtividade e baixa custos energéticos

Há uma empresa portuguesa que está a dar nas vistas no mercado internacional da indústria alimentar. A Energy Pulse Systems desenvolveu uma solução pioneira que permite aplicar energia eletromagnética nos processos industriais de produção de alimentos, aumentando a sua eficácia e produtividade ao mesmo tempo que reduz a necessidade de utilização de produtos químicos e assegura um aumento da eficiência energética. Criada em 2012 por Luís Redondo, Marcos Pereira e Fernando Barros, a Energy Pulse Systems é hoje uma referência mundial e está já a desenvolver aplicações semelhantes para utilização em setores tão distintos como a saúde, o tratamento de águas ou os combustíveis.

Luís Redondo, professor de Eletrónica e Sistemas Digitais no ISEL, é o responsável pelo desenvolvimento desta solução que recorre à aplicação de potência pulsada nos processos industriais. “O que fizemos na Energy Pulse Systems foi desenvolver uma aplicação para a indústria alimentar que recorre à eletroporação, uma técnica em que se aplicam campos elétricos nos alimentos – maçãs, uvas, azeitonas, etc. – provocando a abertura de poros na membrana celular dos mesmos”, explica este físico nuclear, referindo que “esta solução permite aumentar a extração de sumo na maçã, aumentar a extração de polifenóis na produção de vinho e reduzir a temperatura de maceração do azeite”.

Desenvolvida a partir da investigação académica, a técnica da Energy Pulse Systems ganhou contornos comerciais com o estabelecimento de uma parceria com a Schneider Electric. O grande desafio, conta Luís Redondo, consistia em transformar um protótipo de laboratório numa máquina que não fosse estranha à indústria, que fosse fácil de utilizar pelos trabalhadores e que passasse a ser vista como uma máquina como tantas outras que há em cada fábrica. “A Schneider deu-nos uma grande ajuda porque desenvolveu um invólucro mais adequado ao ambiente industrial, com um layout mais simples e um interface que é facilmente utilizado por qualquer pessoa”, conta este responsável, sublinhando que foi esta “transformação de um protótipo de laboratório numa máquina industrial que permitiu que a solução desenvolvida pela Energy Pulse Systems fosse aceite pela indústria”.

Apesar de esta ser uma técnica pioneira em Portugal (a Energy Pulse Systems é a única empresa na Península Ibérica a trabalhar com esta tecnologia), Luís Redondo confessa que a indústria nacional ainda não está rendida à eletroporação. “Por um lado ainda há algum receio, como há sempre que surge uma nova tecnologia. Mas, essencialmente, há ainda um grande desconhecimento das potencialidades do recurso a esta solução”, frisa.

Primeira paragem: Alemanha

Exatamente pelas razões elencadas, não foi em Portugal que a Energy Pulse Systems iniciou a comercialização desta aplicação. Marcos Pereira, também administrador da empresa, explica que a Alemanha é o primeiro grande mercado em que estão presentes. “Estamos a trabalhar com um dos maiores produtores mundiais de sumo de maçã”, revela, adiantando que a presença no mercado alemão é um ativo para a credibilidade das soluções da Energy Pulse Systems: “A Alemanha é o país mais industrial do mundo.
É um mercado muito importante e para que uma empresa se consiga estabelecer junto da indústria alemã é preciso que tenha muito valor.” “Estar presentes na Alemanha dá-nos visibilidade e credibilidade. Acreditamos que vamos crescer para outros mercados nos próximos anos”, defende.

Fernando Barros, administrador financeiro da Energy Pulse Systems, adianta que a empresa está já a olhar para novos mercados – incluindo, naturalmente, o mercado nacional – e que o objetivo passa por manter a parceria existente com a Schneider Electric e aplicar a solução que agora está a ser implementada na indústria alimentar a outros setores de atividade, como “a saúde, o tratamento de águas, ou o setor do petróleo”. Sem querer adiantar pormenores sobre as perspetivas de crescimento da empresa, este responsável revelou que os três administradores da Energy Pulse Systems preveem que o volume de negócios poderá ascender a 40 milhões de euros ao longo dos próximos quatro anos.

João Cristóvão Baptista (texto)
Orlando Almeida/Global Imagens (foto)