O líder mundial de garrafas de gás domina a partir do vale do Ave

Indústria. A Amtrol-Alfa produz 25 mil botijas de gás por dia com destino para cem países. É a empresa mais inovadora e a maior exportadora mundial do setor, vendendo 97% da sua produção para fora do mercado português

Quem passa pela zona industrial de Guimarães, em pleno vale do Ave outrora conhecido pelo selo low tech dos têxteis nacionais, não adivinha que ali mesmo na margem verde do rio a Amtrol-Alfa esconde um universo de sofisticada tecnologia que marca o tempo e o modo do mercado mundial de garrafas de gás. Na terra-berço de Portugal nasceu também o maior exportador mundial deste setor, em especial das botijas de nova geração, de peso pluma. Do complexo de seis fábricas, cada uma dedicada a modelos específicos, saem diariamente 25 mil garrafas com destino a cem países. Mas não é pela quantidade que a empresa mais se notabiliza. “A Alfa é conhecida como a mais inovadora deste  mercado”, diz o vice-presidente, Tiago Oliveira, com um brilhozinho nos olhos, para logo acrescentar que “nos stands das feiras internacionais os nossos concorrentes vão ver o que apresentamos para visionarem o futuro neste negócio”.

E o que é que a empresa de Guimarães tem para mostrar ao mundo? Garrafas muito leves, de seis e sete quilos, que rivalizam com as tradicionais, de 15 quilos, graças à tecnologia de enrolamento filamentar em fibra de vidro e revestimento de plástico. Mas o “último grito” é o modelo Genie, lançado em 2013, uma garrafa de alta pressão para uso hospitalar que visa substituir os altos e pesados e instáveis cilindros de oxigénio.

Parceria com a Schneider Electric

Com uma dimensão normal, leveza e rodinhas, a Genie passa por um processo de soldadura a laser – “um exclusivo da Alfa” – que permite manter ou mesmo aumentar o nível de pressão num espaço muito menor. Tem ainda a particularidade de incorporar um pequeno visor digital com informação sobre o nível de pressão e com todo o ADN do processo de fabrico referente àquela garrafa em particular, permitindo a sua rastreabilidade.

É neste tipo de inovação também ligada à conectividade dos produtos – que podem comunicar com o fabricante e o cliente final – que a Alfa está apostada e para a qual conta com parcerias estratégicas como as que mantém, desde há cerca de 20 anos, com a Schneider Electric. “Trata-se de criar um sistema capaz de recolher dados do produto, tratá-los e fornecê-los ao cliente, na própria garrafa”, explica um técnico desta multinacional. A Schneider, que “queremos que continue a ser o parceiro preferencial” – assegura o vice-presidente –, tem contribuído, além dos sistemas de distribuição de energia, para a adaptação constante das linhas de produção às necessidades que vão surgindo, e para realizar a comunicação entre equipamentos, refere aquele responsável. O sistema de automação da fábrica número 6 da Alfa, a mais recente, é, por exemplo, todo ele desenvolvido pela Schneider Electric.

A flexibilidade é, de resto, uma orientação permanente nas instalações da empresa, que, aos fins de semana, adapta as linhas de produção para  o fabrico de produtos diferentes. Muito em breve, aquela unidade – onde trabalham 800 pessoas, 200 das quais recrutadas nos últimos seis meses – vai ser configurada para a produção de um novo produto.  “Estamos na fase final de validação de uma nova garrafa”, diz Tiago Oliveira. O próximo passo da inovação poderá muito bem ser uma garrafa com um visor e um chip, em que não só esteja indicada toda a história do produto mas também permita que o cliente possa passar o telemóvel e “comunicar” de volta com o fabricante, via produto, fazendo, por exemplo, novas encomendas, para a localização indicada pelo GPS do telemóvel.

É o admirável novo mundo da “industrial internet of things”, ou a internet dos objetos. E é também o universo da crescente robotização: quanto mais inovador é o produto na linha de produção, menor é o número de trabalhadores utilizados no seu fabrico.

“A nossa política é de inovação contínua e inovação radical a cada dois anos, ou seja, demoramos dois anos, em média, a consolidar antes de lançar um novo produto”, explica o vice-presidente, que já passou por todas as áreas da empresa antes de ocupar o cargo atual, desde os tempos em que a empresa era totalmente portuguesa e se chamava Comanor-Alfa.

Exportação absorve produção

Tal política não seria possível sem um forte investimento financeiro: a empresa investe até 2% da sua faturação em investigação e desenvolvimento, o que equivale a cerca de 1,4 milhões de euros, tendo em conta os 70 milhões de euros gerados em 2015. Tiago Oliveira estima que neste ano as vendas possam ascender aos 80 milhões de euros, sublinhando que “será um ano de consolidação”.

O processo de inovação da empresa é apresentado de um modo curioso pelo seu vice-presidente: “De 15 em 15 dias, o conselho de administração reúne-se com representantes de todas as áreas, entre os quais os parceiros Schneider e as universidades. Há uma agenda ampla e a asneira é livre”, diz,  explicando que no processo de inovação não pode haver inibição nas ideias. “Nessas reuniões, o presidente está presente e tem muita paciência para ouvir asneiras”, acrescenta.

Em contrapartida, o resultado tem sido altamente compensador, a ponto de a Amtrol-Alfa estar sempre representada nos comités internacionais que decidem os regulamentos técnicos para este setor, sendo a própria a suscitar a alteração da legislação. “Quando se está continuamente a inovar, acaba-se por ir além dos limites previstos nos próprios regulamentos e criamos a necessidade de os rever”.

Os três grandes produtos de inovação radical representam neste momento 40% da faturação. São eles a garrafa Comet, lançada em 2005, que ficou conhecida como a Pluma da Galp, com sete quilos, tendo já ultrapassado os dois milhões de garrafas exportadas. Seguiu-se, em 2008, a Xlite, com seis quilos, que já vendeu mais de um milhão de exemplares e, em 2013, a Genie.

A empresa exporta cerca de 97% da sua produção, tendo em Espanha, Inglaterra e França os seus principais mercados europeus. Mas exporta também para os Estados Unidos, a América do Sul e África.

Enquanto nos mercados mais sofisticados a empresa combate a retração do mercado do gás de garrafa pelo elevado grau de diferenciação dos seus produtos, nos países menos desenvolvidos, como os africanos, o mercado do gás de botija está, pelo contrário, em grande expansão. Esta dicotomia permite à empresa crescer,  tanto pelo lado da quantidade como pelo da inovação, explica o seu vice-presidente.

Com a esmagadora maioria da produção canalizada para o exterior, o mercado português absorve apenas 3% da produção da empresa de Guimarães. As suas botijas são utilizadas pela BP, Galp, Repsol, e 0z Energia.

A orientação para a inovação na Amtrol-Alfa não é nova, tendo começado nos anos 90 e beneficiado de um grande impulso em 1997, aquando da aquisição pela multinacional norte-americana Amtrol, Inc. Desde então,  já terão sido investidos perto de 20 milhões de euros, aproveitando também financiamentos comunitários ao abrigo do Sindave, um programa que privilegiava investimentos no vale do Ave de setores diversos dos têxteis, para reduzir a excessiva dependência regional daquela indústria. O desafio mais imediato para um virar de página decisivo no caminho da inovação foi quando a empresa se viu confrontada com a necessidade de readaptar uma linha de produção que estava configurada para produzir dois milhões de garrafas tradicionais e que, por imposições ambientais relacionada com emissões nocivas para a camada de ozono, teve de ser substancialmente reduzida.

Foi assim que se abriu o caminho para nascer a Comet, mais conhecida no mercado português como a garrafa Pluma da Galp, a tal que, segundo o anúncio televisivo, até uma mulher poderia carregar ao ombro.  O desafio continua: “Vamos fazer garrafas cada vez mais leves”, assegura Tiago Oliveira.

Carla Aguiar (texto)
Miguel Pereira/Global Imagens (fotos)